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Artigo
Feminino futuro
Por Rosa Alegria

Um novo direito a ser conquistado

O que vai ser do amanhã? Essa pergunta tem povoado a mente e o coração da humanidade. Todas as grandes mudanças civilizatórias tentaram responder a essa questão transformadora. Com o advento da sociedade patriarcal há mais de seis mil anos, nos cenários das mudanças, os homens estiveram no palco e as mulheres nos bastidores.

Caçadores, líderes, governantes, guerreiros, salvadores e algozes, foram eles que autenticaram os documentos oficiais de cada projeto histórico. Nas nossas diversas representações, deusas, Madonas, bruxas, donas-de-casa, divas, ativistas, profissionais, mães, filhas, governantes, caminhamos e fizemos a humanidade caminhar.

Nos silêncios e nas palavras, laboriosas nos bastidores, estivemos tecendo o nosso feminino futuro. Atravessamos este século no apogeu de nossa existência, devoradas pelos totalitarismos e dobradas pelos vértices das mudanças. Nem mesmo as mordaças patriarcais nos tiraram o afã de tentar construir um mundo acolhedor aos nossos homens, maridos, filhos, companheiros.

A conquista dos nossos direitos, marcou a história do século 20 dentro das alterações macroeconômicas e sociais, e foi determinante para a evolução de toda a sociedade contemporânea.

Estatísticas mundiais indicam que nos últimos vinte anos, os índices de mortalidade materna caíram 50% e o avanço feminino foi duas vezes maior que o masculino nos processos de alfabetização e inserção nas escolas. De 1990 a 2000, o analfabetismo sofreu uma redução de 39% entre as mulheres.

E hoje, entrando no século 21, conquistadoras de uma evolução econômica e social, constatamos que as mudanças que fizemos e estamos por fazer, estarão redefinindo o desenvolvimento sustentável do Planeta. É tempo de lutarmos pelo direito ao futuro.

A ordem evolucionária do universo feminino

Nada nos fortalece mais do que pensar no futuro. Aquele que desejamos para nós mesmas e para as próximas gerações. Claro, o futuro não é só nosso, é de quem geramos e criamos. Mas ele nos instiga e nos dá legítimo sentido, como geradoras e mães.

Nesse novo cenário, o palco das mudanças nos espera. Temos muito mais para fazer e acolher. Dessa vez livres e soltas, lutando por recuperar o tempo perdido, ainda em busca do melhor caminho, que não seja o do confronto e da exclusão. Queremos dar um novo rumo à história. Queremos seguir o caminho da paz e da justiça. As conquistas foram muitas, na economia, na sociedade e na política. Conquistamos nossos lugares nas escolas, oficializamos e ampliamos nossa atuação no trabalho, estamos sendo eleitas para o poder público. Valeu a pena lutar pelo direito à liberdade e combater a discriminação.

Mas é preciso apertar o passo. Apesar das conquistas, ainda morremos ao parir nossos filhos, somos violentadas em casa e nas ruas, recebemos salários menores que os dos homens, somos dois terços da população mais pobre e dois terços do contingente de analfabetos do planeta. Apesar de constituirmos quase 70% da força de trabalho em todo o mundo, respondemos por apenas 2% das decisões. Aqui no Brasil, somos as que recebem apenas 7% dos investimentos sociais das empresas, e nelas ocupamos apenas 6% das posições de alta liderança. Ainda percorremos com muita dificuldade os cenários das grandes decisões e enfrentamos as disparidades do poder econômico e do acesso aos serviços de saúde. Mediante esses desafios, que às vezes pesam em nossos ombros, não podemos deixar passar essa oportunidade única que está em nossas mãos: mais do que mudança ou aprimoramento é a transformação que devemos conduzir. O caminho está aberto. Não tenho dúvidas de que estamos no limiar da criação de uma nova ordem mundial: a ordem evolucionária do universo feminino.

Vamos lutar pelo direito ao futuro

Proponho uma reflexão sobre a grande e verdadeira extensão de nossas ações para a criação de um futuro que merecemos e desejamos. . O caminho ainda é longo. Nossas tarefas ainda são tantas. Mas o trabalho não nos assusta. Sempre trabalhamos tanto.

A futurista Barbara Max Hubbard tem uma visão clara dessa nova ordem: "Somos uma geração que veio numa época de mudanças sem precedentes no planeta. Temos que parar com a superprodução, com a poluição, temos que coordenar nossas vidas e nossas tarefas num só corpo, lidarmos com nossos próprios prejuízos, mudar de recursos não - recicláveis em recicláveis, distribuir alimentos para todos, redesenhar sistemas sociais falidos na educação, saúde, finanças e meio ambiente. Somos a primeira geração da qual se espera a tomada dessas imensas responsabilidades".

No entanto, essa nova realidade que nos colocou numa onda de reestruturação econômica e social poderia ser mais difícil se não pudéssemos contar com as tecnologias da informação. .

Em seu estudo "Os Futuros da Mulher - Cenários para o século 21", Pamela McCorduck e Nancy Ramsey apontam para um grandioso cenário: "com a tecnologia da informação, as mulheres irão florescer. A nova tecnologia vai nos dar a habilidade de trabalhar com flexibilidade e nutrir nossas famílias enquanto trabalhamos".

Estão proliferando as webs femininas, poderosamente aglutinadoras. Como poderíamos imaginar que uma tecnologia tão poderosa como a Internet poderia ser capaz de fortalecer e multiplicar o pensamento feminino? Numa progressão geometricamente feminina, o cérebro femininamente global da Internet está propondo a mobilização de 1 bilhão de mulheres numa conversação planetária. Iniciativas diversas em cada cidade, vilarejo ou comunidade estarão acontecendo com a proposta de criar mudanças positivas através da ação colaborativa.

Faço parte de uma iniciativa muito importante nesse momento do florescer feminino: a Sociedade dos Saberes Femininos. A idéia é criar condições e ambientes favoráveis para um profundo conhecimento sobre a mulher, de forma a possibilitar que as organizações promovam seu bem estar, atendendo-a na sua totalidade. Em breve na Web www.ssf3.org

Mas temos agora que lutar por um novo direito: o direito ao futuro. Na condução das mudanças que favoreçam toda a humanidade, estaremos permitindo que nossos filhos e netos e bisnetos e várias outras gerações desfrutem da paz, dos recursos do planeta, da água, do ar, do alimento, da inclusão, da solidariedade, da irmandade. Precisamos fazê-los redescobrir o valor dos sonhos, das utopias que nossas elites nos roubaram. Temos que ninar nossos filhos com a imaginação do futuro que desejam, nutrindo com significado as suas vidas tão famintas de ideais.

Propomos um caminho totalmente novo, aquele a ser guiado pela voz e pelo olhar feminino, que abre os braços e estende as mãos à diversidade, às diferenças, sem medos e ameaças, apenas confiante na cooperação verdadeira entre homens e mulheres.

Rosa Alegria - Saiba mais 

 
 
 
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