Artigo
Por
que estudar o futuro?
Por Rosa Alegria
O futuro não se pode prever. Aqueles que se predispõem a
revelá-lo não merecem crédito por parte dos futuristas.
Ninguém sabe com total clareza ou certeza o que irá
acontecer no futuro.
Entretanto, a imprevisibilidade fundamental do futuro não significa que não nos devemos preocupar com ele e meramente apostar na sorte, na providência divina ou no destino. É preciso se preparar para navegar no mar turbulento das crises e incertezas. Isso significa que precisamos Ter um olhar mais abrangente com relação ao futuro. Apesar de uma franca evolução Os Estudos do Futuro têm sido
erroneamente interpretados como uma ciência de se fazer previsões. A resposta a essa visão distorcida é a atual expansão dessa área como disciplina acadêmica e como campo de conhecimento. Dentro dessa nova realidade, a proposta essencial da atividade dos futuristas tem sido manter ou aprimorar o bem estar da humanidade e a capacidade de auto sustentação da sociedade, através de uma constante exploração de alternativas, que são denominadas por futuros alternativos. Através de um pensamento prospectivo, os futuristas trabalham para criar novas imagens do futuro, explorando o possível, estudando o provável e avaliando o preferível. O possível, o provável e o preferível – esses são campos que os futuristas procuram sempre conhecer e explorar.
O presente é também um importante campo de estudo para os futuristas, porque a ação que se dá no presente é o que dá forma ao futuro. Portanto, as condições do presente devem ser estudadas, já que o pensamento de futuro envolve amplamente o que se deve fazer agora, que passos devemos tomar para criar um futuro desejado, tendo em vistas as condições do presente e as esperanças no futuro.
Uma ampla literatura e uma rica série de metodologias hoje permeiam os Estudos do Futuro e esclarecem melhor esse campo de estudo, atenuando a sua complexidade. Em primeira instância pode parecer difícil estudarmos algo que não existe, e é claro, o futuro não existe. Entretanto, os futuristas tem respondido de diversas formas a esse desafio. Afinal de contas, eles não são os únicos a lidar com o intangível. Os campos da arte, da estética, da lei, da religião, da ética também envolvem fenômenos não-naturais, mas a sua contribuição para o desenvolvimento humano é inegável. Para muitos, o futuro ainda é uma abstração. Enquanto imagens estereotipadas do futuro ainda permanecem na c cultura popular, existe um grupo crescente de estudiosos levando a sério a sua potencialidade, disponibilizando estudos que possam influenciar na tomada de decisões em todos os setores da sociedade.
É preciso estudar o futuro para podermos, através de imagens e projeções, criar uma plataforma que sustente uma sociedade desejada e sustentável.
Pensamento a longo prazo ou Administração de Crises?
Pensar longe tornou-se uma necessidade estrutural às sociedades em transição. É preferível planejar o futuro d que gerenciar crises, já que essas são caras e traumáticas. Temos o exemplo de nossa atual crise energética. Como ela poderia Ter sido evitada se já tivesse sido implantando um plano sistemático de futuro? Antecipar eventualidades, preparar-se para as contingências, explorar novas alternativas. Esses são os caminhos mais saudáveis para lidarmos com as mudanças.
Um novo campo do conhecimento
De acordo com o futurista australiano Richard Slaughter, falta de um pensamento de futuro na sociedade é um dos principais fatores que não potencializam a adaptação as mudanças. Uma sociedade industrial como a nossa não pode caminhar sem a luz do planejamento de longo prazo num momento de instabilidade como o atual.
Um testemunho eloqüente dessa necessidade é o crescente volume de pesquisas internacionais envolvendo as atitudes dos jovens e como eles convivem com as possibilidades que o futuro apresenta. Existe uma dificuldade inerente às novas gerações, já que o futuro é visto com insegurança e ambivalência. De acordo com essas pesquisas, os jovens temem pelas conseqüências da mudança, as ameaças da guerra e de conflitos sociais e também temem a inovação tecnológica e a destruição do meio ambiente. As suas visões de futuro retratam claramente o q quanto estão alienados da realidade global, que é por eles vista negativamente.
Não podemos culpar apenas os padrões vigentes de pensamento ou a cultura popular, que através de mídia dissemina estereótipos banalizadores do futuro. O que falta é entendimento do que pode ser o futuro como uma alternativa que deve ser imaginada, desenvolvida e vivida. Não há dúvidas de que o campo educacional é o canal no qual essas questões podem ser tratadas dentro de um universo de aprendizagem.
Ampliando o universo acadêmico
O campo de estudos do futuro é notável pelas suas idéias, sua literatura e uma ampla gama de metodologias, entretanto pouca atenção tem sido dada no meio acadêmico. O discurso da História tem raízes sólidas na Academia, enquanto que o discurso do Futuro não ocupa espaço, nos levando a perceber que valores relacionados ao passado são mais valorizados que os valores orientados para o futuro. Entretanto já podemos observar uma evolução. Já podemos encontrar programas de mestrado e doutorado em países como Austrália, Estados Unidos, Japão, França, Taiwan, Inglaterra. Esse movimento acadêmico tem repercutido na América Latina, a exemplo do México, Argentina, Colômbia, Venezuela, Chile, em que já existem propostas acadêmicas interligadas através de uma rede de estudiosos, escolas e centros de pesquisa.. Apesar de tudo, essa “disciplina prospectiva” ainda não faz parte de uma realidade educacional, em virtude da falta de entendimento de seus conceitos mais importantes. Geralmente disseminando tradicionais campos do conhecimento ( ciências naturais, literatura, artes, ciências sociais e ciências aplicadas) a Academia até pouco tempo não estava difundindo o conceito de Estudos do Futuro o que não possibilitou esse amplo entendimento. Ainda nos centros de estudo acima citados em que se fazem presentes, essa é uma disciplina normalmente deslocada de todos os programas acadêmicos, em virtude de seu aspecto inter e multidisciplinar. O status científico alcançado ainda não é suficiente. Para uma real legitimidade dos Estudos do Futuro, é preciso que as escolas se abram para isso. As universidades têm um papel essencial a desempenhar no desenvolvimento dessa disciplina, ainda não bem legitimada. A sua inclusão nas escolas deverá ampliar o universo acadêmico para um padrão contemporâneo e ampliar a rede de futuristas em nível global..
As metodologias
Muitos são os métodos utilizados nos Estudos do Futuro, de técnicas de amostragem a analises estatísticas, coleta de dados, pesquisas de opinião, técnicas participativas. É importante obtermos uma descrição e uma analise de tendências passadas e condições do presente numa base de projeção e construção do futuro.
Existe uma ma importante dicotomia entre métodos que têm objetivos qualitativos e quantitativos. Algumas questões não podem ser tratadas de forma qualitativa, como por exemplo o futuro da população brasileira. Por outro lado, a quantificação poderá acrescentar muito a uma discussão que por exemplo envolva a ética parlamentar. Entretanto, em muitas situações, ambas as abordagens se complementam. Uma outra importante distinção deve ser feita entre o que é normativo e o que é exploratório. O método exploratório estuda o futuro a partir de onde estamos no presente. Por exemplo, o que poderia acontecer nas relações de trabalho partindo do sistema atual? Ao contrário, o método normativo questiona o que poderia acontecer se tivermos uma meta estabelecida?
Existem hoje mais do que 17 métodos aplicáveis a diversas finalidades. Entre elas, técnicas de extrapolação, estatística, brainstorming, desenvolvimento de cenários, simulação, analogia histórica, análise de tendências, análise de cruzamento de impactos, mapeamento contextual, modelos operacionais, monitoramento.
Grupos e Instituições que estudam o futuro
A falta de um pensamento de futuro faz com que sociedades industriais em desenvolvimento, como a brasileira, estejam caminhando cegamente para um período de extrema instabilidade, dificultando a tomada de decisões estratégicas de forma efetiva. É preciso criar um pensamento coletivo com perspectiva de futuro para se conduzir uma série de ações vitalmente importantes, tais como planejamento, aconselhamento, estabelecimento de prioridades, aprendizagem dos que decidem, conscientização dos receptores dessas decisões, informação pública, e assim por diante. Essas ações são tão importantes que não podem ser deixadas ao acaso. Devem ser sistematicamente trabalhadas dentro das estruturas da política, da sociedade e da cultura.
Nos últimos anos tem surgido uma série de iniciativas que contemplam a formação do pensamento do futuro e uma massa crítica prospectiva. São esforços que tomam a forma de instituições, grupos de pesquisadores, associações, conselhos, redes de estudiosos que são patrocinados por governos ou entidades privadas. Exemplos: World Future Society (EUA), World Futures Studies Federation (Europa), The Institute for Social Inventions (Inglaterra), Aqui no Brasil, a PUC-SP
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo oferece um núcleo de pesquisas, o NEF – Núcleo de Estudos do Futuro
www.nef.org.br com o objetivo de propagar o pensamento prospectivo.
Rosa
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