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Artigo
O espetáculo da sustentabilidade
Por André Trigueiro


É indiscutível que o país precisa crescer, gerar emprego e renda e movimentar a economia, transferindo recursos do setor financeiro para o setor produtivo. Este é o diagnóstico que une diferentes correntes políticas e analistas econômicos.

O que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chama de “espetáculo de desenvolvimento” sugere a retomada desse ciclo virtuoso da economia, onde as peças do tabuleiro começam a se encaixar e a locomotiva chamada Brasil arranca em velocidade nos trilhos do desenvolvimento.

Enquanto se aguarda, principalmente, a queda dos juros para que o espetáculo comece, é oportuna a reflexão sobre os rumos do desenvolvimento e o modelo de crescimento econômico que o Brasil merece, e que as geraões futuras haverão de lembrar sem desgosto.

Neste sentido, é importante incorporar à agenda do desenvolvimento a premissa da sustentabilidade, que remete a várias perguntas incômodas para quem está no poder: como fazer o país crescer sem potencializar a já preocupante destruião dos recursos naturais? É possível gerar emprego e renda em escala sem aumentar o crescimento desordenado das cidades? Como promover a expansão da fronteira agrícola sem acelerar a destruião das florestas, a desertificação do solo e o uso perdulário da água?

Vejamos o exemplo da agricultura, que vem sustentando com preciosos dólares nosso superávit na balança comercial. O governo aumentou em 20% o crédito agrícola para a safra 2003/2004. Mas não exigiu nenhuma contrapartida dos agricultores em relação ao uso racional da água na irrigação — segundo o especialista em Hidrologia da USP, Aldo Rebouças, mais da metade da água usada nas lavouras do Brasil desperdiçada — e uso racional do solo (um estudo da Embrapa revela que para cada quilo de grão produzido no Brasil há uma perda correspondente de dez quilos de solo que são levados pela água da chuva, numa reação ao uso de técnicas agressivas que aumentam a produtividade).

Para que a agricultura brasileira seja próspera a longo prazo, é necessário, portanto, fazer ajustes agora. O espetáculo de desenvolvimento poderia também compreender cuidados especiais com os investimentos previstos na área de saneamento básico. De acordo com o IBGE, apenas 20% dos esgotos recebem algum tipo de tratamento no Brasil.

O passivo de investimentos no setor é estimado em 40 bilhões de reais, e as empreiteiras aguardam ansiosas a liberação de recursos para projetos convencionais, onde se constroem grandes estações de tratamento alimentadas por extensas redes coletoras, que necessitam de muita água disponível, e a compra regular de produtos químicos usados no processo de tratamento.

Num país em que 90% dos municípios têm menos de 50 mil habitantes, este talvez não seja o melhor projeto para todos os casos, embora seja o mais caro. Para cidades de pequeno e médio portes, ou na periferia dos grandes centros urbanos, a experiência de Sertão do Carangola, uma favela da periferia de Petrópolis, na região serrana do Rio, pode ser inspiradora.

O esgoto de 230 famílias tratado desde 1994 sem a adição de produtos químicos, num processo que utiliza filtros de areia e sete pequenos tanques de decantação onde são criados peixes e patos, que se alimentam dos nutrientes da matéria orgânica. O tratamento é completado por algas que absorvem o que ainda resta de impureza no esgoto, e que depois de duas semanas são retiradas dos tanques para virar adubo. A água devolvida ao rio tem padrão de balneabilidade equivalente ao da União Européia, e os resíduos sólidos são armazenados em biodigestores que produzem energia a partir do biogás. Custo do projeto: 20 mil reais para a montagem da estação, mais o salário pago a um morador da favela que cuida da manutenão do sistema, financiado com recursos da Fundação Banco do Brasil e de ONGs brasileiras e alemãs.

Outro exemplo interessante de como a variável ambiental pode se encaixar perfeitamente num projeto de desenvolvimento acontece na construção de casas populares.

Estima-se que, no Brasil, o déficit habitacional seja de aproximadamente 6 milhões de unidades. A construão civil é o setor que mais emprega, e também o que mais gera desperdício de materiais.

Espera-se que a retomada do desenvolvimento provoque uma nova onda de construções, mas não se questiona o modelo de projeto que privilegia o uso perdulário dos recursos. O conceito de construção sustentável, ou greenbuilding, bastante disseminado nos países ricos onde os recursos naturais não são mais abundantes, estabelece como prioridade na confecção de todos os projetos imobiliários o baixo consumo de água, eficiência energética, infra-estrutura para separaão de recicláveis, uso de materiais que gerem menos poluião e impacto ambiental e outros quesitos normalmente ignorados pela maioria dos construtores.

Há ótimos exemplos, inclusive no Brasil, de como é possível investir nesse modelo de construção sem descuidar dos custos do projeto — ou seja, o produto final competitivo. O atual governo não precisa encomendar estudos ou designar comissões para verificar os caminhos da sustentabilidade na agenda do desenvolvimento.

Um amplo diagnóstico — sem precedentes na história do país — mobilizou 40 mil pessoas em todos os estados representando diversos setores da sociedade civil.

Depois de três anos de trabalho esse movimento, que se revelou o mais amplo processo de participaão popular para definir políticas públicas do país, produziu um documento chamado Agenda 21, que se divide em seis temas básicos: Agricultura Sustentável, Cidades Sustentáveis, Infra-Estrutura e Integração Regional, Gestão e Recursos Naturais, Redução das Desigualdades Sociais e Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento.

Esse imenso estoque de informaões (os documentos podem ser acessados no site do Ministério do Meio Ambiente: www.mma.gov.br ) deveria inspirar as discussões do Plano Plurianual (PPA), os programas de desenvolvimento do BNDES, os critérios para a liberação de crédito para indústria, agricultura e construção civil, as compras governamentais, e principalmente os esforços no sentido de emprestar a essas ações um caráter interministerial, ou transversal, como prefere chamar a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. O verdadeiro espetáculo que o Brasil merece ser o do desenvolvimento sustentável, e isso só ser possível quando a esperança vencer o preconceito.

André Trigueiro, jornalista, é redator e apresentador do Jornal das Dez, da Globonews, desde 1996. Na Rádio Viva Rio AM ( 1180 kwz ), Trigueiro apresenta o programa Conexão Verde, de segunda a sexta. Nele, aborda temas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. O jornalista é pós-graduado em Meio Ambiente pela MEB COPPE/UFRJ (2001).
Artigo publicado originalmente em O Globo

 

 
 
 
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