Artigo
Ode
da transformação
Apesar
das dores, ocupar com emoção as frestas e fissuras
abertas pela WEB
Por Manoel Fernandes Neto
"Trabalhar,
trabalhar, trabalhar". O mantra sufoca e
confunde vozes e motivações que realizam, transformam e
fortalecem o futuro. Como um gás paralisante,
sempre espirrado em momentos de maior criatividade e
desprendimento, subverte a lógica que tornou a Web o Centro
da Terra, de onde partem as maiores invenções
e sublevações da humanidade - e que insiste em
sobreviver, apesar da chacina constante que sofrem
projetos, iniciativas e inventividade.
O mercado publicitário é cúmplice, aliado à lógica
que ele próprio inventou. Ele alimenta a indústria da
destruição dos novos conceitos que abalam sua
credibilidade e seus métodos. "Qual o perfil dos
seus usuários?" "Qual o mercado que você
atinge?" "Quantos page views isoladamente seu
projeto oferece?" "Tome um cafezinho, fique à
vontade." "Se você for bonzinho o colocamos no
time, mas vamos evitar este assunto de códigos
abertos."
"Trabalhar, trabalhar, trabalhar". Os jornais
agonizam, mas preferem tratar como "índice"
a legião
de desesperados em busca de emprego como gari.
Fecham os olhos para o efeito colateral da falta de
investimento em conhecimento nas recentes décadas de
"país do futuro". Hostes de desesperados que
alimentam a máquina secular da omissão ética que a
Internet subverte. Executivos? Judiciários? Legislativos?
Façam suas apostas, comendo pipoca e assistindo ao Jornal
Nacional.
Bem a propósito, um grande
provedor cria como garoto propaganda um chimpanzé,
com sua "voz" impostada, de quem quer parecer
humano. Movimentos calculados, alegria domesticada. Mais
uma banana para o clic do seu usuário. Um fuxico
é o maior "prazer" dos desavisados. Mulheres
nuas anabolizam as audiências. As empresas
vibram. O banner pisca e anuncia a nova promoção "on
demand".
"Trabalhar, trabalhar, trabalhar". Não
dê muito crédito para aqueles
"sonhadores" que vão para a periferia,
pois incluir não faz parte do "jogo". Chame de
"idealistas ingênuos" os
que saem em passeata e dizem não às armas.
Ignorem aqueles que choram à toa, pois o
"mercado" não suporta emoção. "É
assim mesmo, desde a criação da primeira moeda".
Conforme-se, e você terá chance de conhecer o gosto de
um champanhe importado.
Uma amiga lamenta. A Cúpula
Mundial sobre a Sociedade da Informação está
escondida no noticiário. "Isso é muito
perigoso", sussurram, entre dentes implantados,
grandes empresários de negócios
em ruínas. Ávidos por investimento
governamental.
O paciente
malinês, no O Globo, não se importa
e afina
a definição "subversiva": "É
uma sociedade onde todos tenham alguma participação.
Construída pelo somatório de esforços e a harmonização
dos interesses. Onde o uso das tecnologias de informação
e comunicação seja o mais apropriado ao desenvolvimento
humano e social. Onde todos sejam produtores de conteúdo.
Não de informação. Porque informação é algo que se
possui. Mas de conhecimentos. Todo o tipo de conhecimento.
Que possa circular. Ser trocado livremente."
O velho
hacker, no ICQ, profetiza que a vitória é
longínqua, mas que escrevemos uma jornada sem igual que
será exemplo para todos os filhos. Relembra
bons parágrafos da trajetória. "Depois
de ter vivenciado as conquistas sociais dos últimos 40
anos, não poderia deixar de lado toda essa minha experiência
e me enquadrar no mundinho corrompido dos negócios."
Mas mantém o otimismo: "Quem prega que os
ideais devem ser deixados de lado para uma adaptação
natural, vai ter que se entender com sua própria consciência."
"Trabalhar, trabalhar, Trabalhar". O
lixo do sistema sobrevive para confundir e matar negócios
honestos. Ganha novas definições, mas denunciam o
pensamento comum mercantilista: "Aumente seu pênis
em até 5 cm." No mundo corporativo, Workshops
de "marketing pessoal" ensinam a ser "simpático"
com o pipoqueiro, a sorrir, interesseiro, para o
acionista. Terno impecável e danças conjuntas auxiliam o
seu relacionamento com "clientes internos". A
Internet é bloqueada pela segurança dos negócios. "Pensar
é perigoso, reflita sobre isso."
Empresas bem intencionadas e conscientes não conseguem
romper o cerco de interesses. Ignorar os relatórios do
"gerente" e investir no novo. Patrocinar a
necessária renovação dos protagonistas. Inocentemente,
fecham os olhos para a mortandade de projetos e
iniciativas que podem definir o futuro da humanidade.
Mas em guerras desiguais a estratégia é multiplicar,
multiplicar, multiplicar. Onde uma revista tem que valer
por duas, e um blog tem que valer por cinco. Matam-se dez,
surgem vinte. Sufoca-se um cento, disseminam-se duzentos.
Ocupar as janelas, frestas,
fissuras, em táticas de sobrevivência que subvertam a
ordem dos empoeirados estabelecidos e que tragam ar
suficiente para prosseguir respirando. Desejar e querer a
transformação, apesar das dores. Não largar o leme,
mesmo que as mãos sangrem. Lembrar que a grande onda está
sempre a favor dos navegadores destemidos e ousados. Pois
isso é o que fica, os restos são cláusulas de inventários.
Manoel
Fernandes Neto, 40 anos, jornalista com 17 anos de
carreira, é editor responsável pela revista digital Novae
e site Mídia
da Paz e diretor executivo de MFN
Comunicação.
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